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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lua de verão
risca o céu num tom de prata.
E o silêncio é ouro.

          Terezinha Manczak
Os olhos ao mar
são cavalos disparados
que fogem de mim

Terezinha Manczak




.
Mares de Neruda-
a palavra pacifica
todas as tormentas.

Terezinha Manczak
Na Via del Vino,
vinho é uma palavra tinta -
Gotas de rubi.

Terezinha Manczak
Lua de novembro
joga luz num céu de chumbo -
A chuva cessou.

Terezinha Manczak

domingo, 7 de novembro de 2010

Ao Deus dará

Um  filete cor de sangue  descia  do peito até a barra do vestido da moça, a caminho do altar.
Do lado de fora da igreja, alguém apertara o gatilho, no exato momento em que as portas da nave se abriam  e ela  dava os primeiros passos sobre o tapete vermelho.
O tiro fatal separou noivo e noiva.

Terezinha Manczak
Travessia

Em poucos minutos, o fogo consumiu toda a matéria humana que cobria aquele corpo cheio de vaidades.
Uma nuvem esbranquiçada de fumaça subiu até o teto, ficando no fundo do forno um tanto de cinzas suficiente para encher uma pequena caixinha de latão.
Agora o ser era como uma ave no ovo.Sem asas e sem canto.Uma ave no mundo ovo.
Presa por uma corrente no fundo da embarcação, uma gaiola de musgos resguardava-o em sua travessia, ainda sem saber exatamente para onde.
O barqueiro, um homem vestido de negro, não remava. Apenas conduzia a barca, deixando o manejo dos remos por conta das criaturas que atravessavam com ele, naquelas águas turbulentas e escuras. Em pé, de braços cruzados, fitava- os com seus olhos de fogo, sem nenhuma expressão.
Nem o vento cortante, ou as ondas que se levantavam respingando em todos os passageiros, conseguia apagar aquelas duas brasas acesas nas cavidades orbitais de seu rosto esquálido.
A ave já emplumada no mundo ovo, aos poucos adquiria um pouco de consciência. Sentia o balanço das remadas, a umidade do ar. O seu casulo de tempos passados, parecia estalar a cada braçada mais forte dos remadores condenados. O espaço que ocupava tornava – se menor, à medida que se aproximavam da margem. Não era dor o que sentia. Mas para respirar de novo, precisava fazer algum esforço. O seu peito ardia e dentro dele algo batia de leve.
Medo. Era medo o que a fazia tremer nas pernas ainda dobradas na posição de feto. Não sabia o que a esperava quando chegasse ao seu destino.
Mas nem tudo era desespero. Do outro lado do rio, talvez logo pudesse reencontrar o pássaro de vôo olímpico, que já havia feito a sua passagem.
Ambos guardavam um segredo:  poemas e  violetas azuis.
Será preciso que ele pouse novamente em suas mãos, para que o céu e a terra se toquem, e ela ganhe asas também.

Terezinha Manczak
O JARDIM SUSPENSO DOS MORTOS

Meu corpo pesa sobre a fria mesa de uma sala desconhecida e ao mesmo tempo flutua sem esforço e alheio à minha vontade.
Não consigo abrir os olhos, mas percebo movimentos ao meu redor. Sei e nada faço. Silencio, enquanto o grito que contenho sufoca - me ainda mais.
Alguns vultos dançam em minhas retinas enclausuradas, sem formas e sem nomes.
Um homem de branco me conduziu até aqui. Foi a última imagem que guardei após ter ouvido o ruído surdo de uma rajada de metralhadoras. O Carro Forte. O furgão amarelo no estacionamento do Banco.
Não ouço vozes. Apenas um som longínquo que lembra o vento ou pios de pequenas aves. Algo como cânticos, música suave ou sussurro de crianças.
Sempre pensei que ficaria furiosa e revoltada ao saber - me morta. Mas o que sinto agora, ou o que não sinto, é calmo e inesperado
Queria mais tempo  na Terra. Uma vida que acaba assim , como um cristal que se quebra, ao meio dia de uma terça-feira de sol e de tantas coisas por fazer.
Deixei o jardim sem poda, a roupa por pendurar, as contas sem pagamento. O conto pela metade e as visitas ao meu pai, mais uma vez adiada.
Sei que mandarão roçar o gramado; as dívidas, o seguro cobre.O conto, será retirado da máquina de escrever e jogado no lixo. Não fará falta alguma. Era só um conto. Só um faz de contas. As roupas, centenas de vezes mais serão batidas, centrifugadas e penduradas nos varais. O pai, dói não tê-lo poupado disso.
Enterrar. Essa palavra , sim, me apavora. O escuro. O vazio. Os vermes.
Prefiro o fogo. A cremação do corpo. As labaredas consumindo meus ossos e minha carne ainda jovem, tão quente e macia.
No crematório, imagino uma cena de puro ilusionismo. O caixão que desliza por baixo de uma cortina e que desaparece.
Um corpo em chamas. Um clarão. Um punhado de cinzas e um pouco de memória.

Terezinha Manczak

sábado, 6 de novembro de 2010

Seis fios de arame
limitam a liberdade
da ovelha no pasto


                     Terezinha Manczak

(foto de Fátima Borchert)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010



Isla de Neruda -
Entre o poeta e o Pacífico,
poesia ancora.
                      Terezinha Manczak

Foto de Renato Gusmão

sábado, 30 de outubro de 2010

as palavras

líquida clareira -
água é uma palavra aberta,
no leito do rio.
           Terezinha Manczak

terça-feira, 3 de agosto de 2010

quem tem medo da poesia?

A poesia é viva, nova, antiga,
origem, sina, certeza, indagação,
mentira, humor, brincadeira,
ilusão,esconderijo, descoberta,
lampejo, sinalização,
mania, rumor, silêncio,
nervo, carne, sangue, salvação,
cabeça, braço, cérebro,
lavoura, fome, comida, trem e pão,
tremor, lágrima, riso,verdade,
disfarce, provocação,
arte, luz, iluminura, obra, raiz,
construção,música ,palavra, consolo,
celebração, forma,porta, janela, chão ,
corpo, alternativa, atitude, suor,
seda, farpa, transgressão.

Terezinha Manczak

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mini-contos de Denísia

Em frente à TV

O prato de cerâmica perfumado pelo filé de peito de frango sobre a mesinha de centro.
Uma garrafa de vinho vazia , um vidro pela metade de molho de pimenta, dois talheres usados, guardanapos de papel e farelos de pão caseiro.
Anuska sente o cheiro de carne. Era a primeira vez que a dona, vegetariana, incluía um alimento de origem animal no seu cardápio.
A cozinheira sai para buscar a sobremesa, bem na hora em que o Brasil fazia o primeiro gol contra o Chile, aos 35 do primeiro tempo.
A cachorrinha não pensa nem uma vez. Rouba o prato usado sujo de comida e esconde atrás do sofá .
Lambe a superfície da louça aos poucos. Rosna a cada passo que ouve da moradora andando pela sala e acredita que seu destino sobre a Terra se alterara para sempre.
O prato era azul.

Denísia


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Copa do mundo


Nos campos da África,
o amarelo predomina
na estação da copa.


Terezinha Manczak

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Estação: Inverno


Haicai

Noites de agosto -
Rasgos de luz nas vidraças,
vento nos trigais.

Terezinha Manczak


Estação: Inverno


Haicai

Em dias de inverno-
avô de capa e cachimbo
nem uma vez mais.

Terezinha Manczak

sábado, 12 de junho de 2010

Estação:seca







Áridas campinas
Aguardam bois e sementes
Ruminando fome


Terezinha Manczak








Brancas margaridas
Escondem pétreos segredos
entre antigos muros.


Terezinha Manczak

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Estação: protesto






Um giz marca os troncos
condenados ao massacre.
Cidade jardim...

Terezinha Manczak

Estação: protesto








Quantas primaveras,
se não fosse assinalado,
viveria o Ipê?

Terezinha Manczak

quarta-feira, 19 de maio de 2010

estação:outono

vento de outono
a silenciosa colina
muda me responde

Matsuo Bashô

Estação:outono


Sol abre passagem
Entre os galhos nus.
Arabescos no jardim

Terezinha Manczak

Estação:outono









Nudez outonal.
Tem pressa o corpo do Plátano
Despido na praça.

Terezinha Manczak

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Estação: outono








Fios de folhas secas
Tecem tapete outonal.
Tear aos meus pés.


(Terezinha Manczak

domingo, 16 de maio de 2010

imagens a partir dos haicais do grupo APLER







Oficinante: Terezinha Manczak

a convite de Suzana Sedrez




Vi na palmeira

O Senhor vento puro

Se balançando



Na minha visão

Nas paredes do banheiro

Tinha um jacaré



Na claridade

Da janela de casa

Sonho em voar

(M. Arlete S. Almeida)



*******

O sol nas paredes -

Enquanto aquece as pessoas

Traz felicidade



Olhando parede

Tenho medo de tudo.

Penso em fugir

(Eunice T. Bento)


********


Um dia de outono -

Bom para limpar a casa.

Sol e claridade.



Minha preocupação

A chegada da velhice

Tenho fé de um dia melhor

(Albertina Hêss)

*************************



Céu azul com nuvens

Liberta ansiedade

Bela natureza

(Marli Kienen)

**********



Preso na mente

Atravessado em dor

Choro na rua



Teus olhos negros

Inspiram-me ainda

Tempo vivido.

(Suzana Sedrez)

********************************

*Associação em Defesa da Saúde do Trabalhador e dos Vitimados pelo Trabalho de Blumenau e Região (ADVISAT / APLER)








sexta-feira, 16 de abril de 2010

A princesa da torre Marquês de Maricá
Terezinha Manczak

Seus pés são leves e delicados como duas pequenas nuvens, branquinhas e macias. Sobem e descem as escadas da torre, graciosos, envoltos em sapatilhas rosa de balé.
Tic-tac e presilhas prendem seus cabelos, para que os cachinhos dourados não escondam seus lindos e curiosos olhinhos azuis.

Quando os pais se mudaram de uma cidadezinha de origem germânica, do sul do Brasil, para um grande centro próximo à Vilha Velha, no Paraná, a primeira coisa que ela fez, foi deslumbrar-se com o belo castelo, escolhido pelos pais, ainda vazio e cheirando a tinta fresca. Olhava em volta e dizia:
- Que grande, Vovó ! Eu gosto “dessa” casa nova!

Enquanto os carregadores traziam os móveis do caminhão de mudanças para o interior da nova residência, ela e a Vó subiam para o segundo piso, para descobrirem onde ficava o seu novo quartinho. Eram três quartos. O dos pais, a suíte, tinha vista para a rua.

Os outros dois, menores, davam para a vista da cidade, repleta de telhados verdes, cinzas, vermelhos e cor de barro cozido. De cima, se avistavam as grandes e seculares araucárias, com suas copas verdes e repletas de pinhas. Um dos quartinhos seria de Roberta, sua irmãzinha mais nova. O da direita seria o seu.
Olhando em volta, sorria e imaginava, que quando chegasse a noite, era ali que dormiria e que guardaria seus brinquedos.

Seu baú cheinho de livros de histórias infantis ficaria ao lado da cama. Ela não conseguia conciliar o sono sem seus amiguinhos de capas coloridas e cheios de letrinhas e desenhos de fadas, princesas, patinhos, bolas, flores, passarinhos e bonecas. Não dormia sem que a mãe lhe contasse ou lesse uma historinha.

De repente, ouve-se um barulho inconfundível, o apito de uma locomotiva.
A avó levanta a neta nos braços e corre até a janela:
- Maria Eduarda, vem! Vamos ver o trem! Daqui da janela do seu quarto dá para ver o trem passando. Corre!

Curiosa, subiu no colo da avó que a adora, para olhar pela janela.
Olhou por cima da copa dos pinheiros, das casas e dos muros. Atenta, viu antes que sua avó, os vagões que se moviam vagarosamente, um tanto encobertos pela paisagem.
- Thomas! É o Thomas!
Vibrava e repetia, com os olhinhos brilhando e cheios de encantamento.

sábado, 10 de abril de 2010

Haicais











Lavoura de maio -
Arado imprime em fileiras,
promessas de pão.


*******************

Noites de agosto -
Rasgos de luz na vidraça,
vento nos trigais.

***********************

Ribeiro da infância -
Entre a colina e a pastagem,
canção matinal.

****************

À entrada do sítio -
cheiro de figos maduros,
pomar maternal.

*****************

Nos campos de inverno -
Avô de capa e cachimbo,
nem uma vez mais.


*****************

Brancas margaridas,
escondem pétreos segredos-
entre antigos muros.

Terezinha Manczak

sábado, 27 de março de 2010

versos desconexos 2


uma palavra ácida
fratura concreta
num verso exposto

uma palavra concreta
fratura exposta
num verso ácido

uma palavra exposta
fratura ácida
num verso concreto



*****

ao pé da cama
o verso insone aguarda
a madrugada que não chega

o dia não amanhece
porque o azedume do pão
bolorou no estômago

ao pé da cama
jaz o sono antigo

****
Terezinha Manczak

domingo, 21 de março de 2010










De humanos e deuses

Do sangue vertem
aragens
Vertigens
Plasma
e memória dos tempos.
Timbrados papéis
Calendários
Vai –e- vém dos ventos
Tempestades
Silêncios
Carne impressa em ventania
Lentidão
ruídos e cordames podres

Ossos e hóstias
repartem o corpo
Celebração
Nervos, estilhaços
contemplação e ócio

Inda não é hora de chamar os deuses
Cá na terra, comemos o barro dos dias
Pecamos
Orgásticos e pobres caminhamos para o nada

De maneira inverossímel, suburbana e tática
Agonizamos
Sob o tédio das heranças e a mesmice prática

Tudo é vão
tudo é via.
Por sobre os muros,
A laje inerte das precariedades.
Ousamos silenciar quando o grito é tudo,
Somos fracos e míopes, num país de surdos

Mornos e úmidos como a boca da noite
Engolimos as horas de um vidro quebrado.
Espelho partido.
Procuramos respostas, o verso perfeito
Descobrimos
Nada faz sentido.
Contrário , quando assumido.

Não sabemos prover o vazio das lacunas
Cegamos o sol com a beleza pragmática
De maneira inverossímel,
suburbana e tática
Agonizamos
Sob o tédio das heranças e a mesmice prática.

Terezinha Manczak

segunda-feira, 8 de março de 2010

Painel Poético/Dia Internacional da Mulher

segue poema que fiz para celebrar vcs, mulheres, todos os dias e todas as noites.



Toda mulher é uma viagem
ao desconhecido. Igual poesia
avessa ao verso e à trucagem,
mulher é iniciação do dia,

promessa, surpresa, miragem.
De nada adiantam mapas, guias,
cenas ensaiadas ou pilhagens.
Controverso ser, mulher é via

de mão única, abismo, moagem.
É também risco máximo, magia,
caminho íngreme na paisagem.

Simplificando: mulher é linguagem,
palavra nova, imagem que anistia
o ser, o vir a ser e outras bobagens



Abraço fraterno

Rubens

www.rubensjardim.com

domingo, 7 de março de 2010

Painel Poético/Dia Internacional da Mulher

M u l h e r
Fonte da Vida



Meu nome?

Será que importa?

Apenas sou mulher

Sou dedicação

Até sou doação

Além de ser filha...

Namorada também sou

Noiva... Esposa ou irmã

Não importa a interpretação

Suporte familiar

Alicerce nas horas certas

Piloto de fogão

Conhecedora de desafios

Também da solidão

Nunca me entristeço

Ao deparar com a ingratidão

Sou tudo isso...

Não escolho profissão

Nasci para a vida

Viso à libertação

Também sou redimida...

Transformo a dor em salvação

Especialista em ceder o perdão!

Nas trevas sou luz

Em silêncio, sou guia

Que entre perigos conduz

Sou de fácil denominação

Basta sentir o meu sentir...

Não sou Amélia

Nem Dama tento ser

Muito menos, a flor camélia!

Apenas mulher de verdade

Visando a felicidade

Em qualquer sentido ou lugar

Mesmo na sociedade

gostaria ser tratada

com merecida dignidade...

Ideais?

Será que os tenho?

Todavia,

um nome preciso ter!



Poderia ser competência

Sobrenome?

Quem sabe, eficiência...

Porém,

prefiro ser denominada

apenas...

M u l h e r

....................................

Ilka Bosse

Bailarina das Letras

Blumenau - SC - Brasil

sábado, 6 de março de 2010

esse poema não é da Cecilia Meireles













CANÇÃO DO SONHO ACABADO

Helenita Scherma

Já tive a rosa do amor
- rubra rosa, sem pudor!
Cobicei, cheirei, colhi,
mas ela despetalou
e outra igual, nunca mais vi.
Já vivi mil aventuras,
me embriaguei de alegria;
mas os risos da amargura,
no limiar da loucura,
se tornaram fantasia...
Já sonhei felicidade
- mãos dadas, fraternidade
ideal e sem fronteiras.
Utopia! Voou ligeira
nas asas da liberdade...
Desejei viver! Demais!
Segurar a juventude;
prender o Tempo, na mão;
plantar o lírio da Paz!
Mas nem mesmo isto, eu pude.
Tentei, porém, nada fiz.
... Muito, da vida, eu já quis.
Já quis... mas não quero mais!...

Painel Poético/Dia Internacional da Mulher

Luzes

Nada sei de bares
Noites
Botequins
Só sei de fronhas limpas
Troca de lençóis
Luzes de abajur
Mesas e jantares

Só sei de aconchegos
Copos quentes de leite
Corpos quentes de amor
Começo ao amanhecer
E vou até o fim do dia

Por isso meu poema simples
Ingênuo
Retiro da rotina
Minha poesia

Meus versos são estrelas
Caídas da noite
E aos tropeços as encontro
No meio do meu dia
Terezinha Manczak

Painel Poético/Dia Internacional da Mulher

Caminhada

Passo a passo
Na madrugada,
Sinto "teus" passos
Seguindo-me na caminhada.
As luzes acesas
Clareiam meu caminhar.
Sinto a tua presença
Pairando sobre o caminho.
Paro.
E toco de mansinho
A tua sombra amada
Na escuridão do chão desenhada

Dorothy de Brito Steil

sexta-feira, 5 de março de 2010

Painel Poético/Dia Internacional da Mulher


a danada

da amada



uma dona

que me dana



uma dama

que me doma



nada muda

essa madame



me dá medo

se me ama



Tchello d'Barros

domingo, 28 de fevereiro de 2010


Fio a fio a trama que me cobre.

De cobre, a faca sem fio, que corta o pão.

De pão me sacio, de palavras, vivo.

Palavras, um banco de dados.

Dados: por um fio, a vida.


Terezinha Manczak

O olho de lama


O olho de lama

O olho dentro do furacão
É o olho de lama que escorre
Dentro e fora dos alicerces

Escultura de água e pó
Que emerge do inferno
Do poço de cada um

Retina estilhaçada
Lato em cinza e chumbo
O próprio olho de açoite

O olho de lama espia
Do centro do furacão
Dentro e fora: voraz

Terezinha Manczak

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

+ Microcontos

Microcontos / Série humor negro

De Terezinha Manczak

Ofício
De mão em mão, a luva esbravejava: Não nasci prá faxineira!


Mínimo
O escritor resumiu ao máximo o seu conto. Digitou um ponto.


Relação
Clara, gema. Gema, Clara! Finja, mas não me desaponte.


Socialite
Tentava de todas as formas "aparecer" no jornal. Tiveram que trocar a fechadura.


Cristal
O vinho era tão seco que precisava ingeri-lo com água.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Painel Poético/Dia Internacional da Mulher


Luzes

Nada sei de bares
Noites
Botequins
Só sei de fronhas limpas
Troca de lençóis
Luzes de abajur
Mesas e jantares

Só sei de aconchegos
Copos quentes de leite
Corpos quentes de amor
Começo ao amanhecer
E vou até o fim do dia

Por isso meu poema simples
Ingênuo
Retiro da rotina
Minha poesia

Meus versos são estrelas
Caídas da noite
E aos tropeços as encontro
No meio do meu dia

Terezinha Manczak

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A paz que procuramos



De maneira bem simples, sem sofisticações ou rebuscamentos, a minha opinião é que buscamos a paz e o sossego de maneira equivocada.

Assunto cansativo e batido por todos os jornais, noticiários de TV, boletins de ocorrência, são as cenas de violência no trânsito, congestionamentos, estresse, discussões. Perda de sono, de paciência e de apetite. E até da vida, cada vez mais do que se poderia suportar.

Li nos jornais de hoje as reclamações de quem não sabe mais pra onde ir, em busca de um pouco de silêncio e descontração. Antes buscava-se a praia. Havia lugar melhor?

Desnecessário falar aqui da dificuldade que encontramos hoje para conseguir lugar até para esticar uma toalha. Sem falar das filas pra tudo. A solução então, seria procurar o campo, a serra, as represas e hotéis fazenda. Salvo algumas excessões, li também, que durante o Carnaval, nem em Rios dos Cedros dava para relaxar. Barulho até altas horas. Para onde iremos? Outra galáxia?

Pergunto: Se é assim, por que temos que viajar todo feriadão, justamente para onde todo mundo vai?

Gostamos de sofrer ou o quê? O Brasil é tão grande, o mundo é tão vasto! O interior é tão rico em paisagens, comidas, lugares e pessoas. Nossos parentes e amigos ficam na cidade, até à vezes um pouco solitários. E pra onde vamos nós? Atrás do trio elétrico. Atrás do Galo da Madrugada. Atrás de encrenca. Desde a última vez que levei três horas para vir de Bombas a Balneário, desisti. No verão eu passo direto.

Pois eu fiquei em casa durante o finado Carnaval. Tédio? Nem um pouco. Livros, tenho vários para serem lidos. Amigos para conversar, é só passar a mão no telefone. Sem falar dos parques vazios e ruas mais vazias ainda. Sem mencionar as revistas de decoração, os novos projetos, os sonhos de mudança. E sem falar do meu tear!!! Minha mais doce TeArpia.

Não sou contra e adoro viajar e aproveitar feriados. Mas se a paz que tanto desejamos está aqui dentro, bem dentro do nosso peito, não precisamos ir tão longe para buscá-la.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A casa poética


A casa poética
Terezinha Manczak

(para o Otto)

Não existe casinha mais poética que uma casa de pescador. Tudo nela se reveste de simplicidade, cheiros, cores e sons. Nela se descortinam madrugadas frescas e douradas de aurora, com a água do mar batendo quase na porta da cozinha. Pelas janelinhas de madeira com tramelas simples, entram o rumor das ondas e a brisa do ar marinho. E quando um assovio mais forte no meio da noite açoita as paredes do quarto, o morador fecha os olhos com força e evoca lembranças de velas brancas e moças de pele morena. Lembra de cardumes cintilantes passando ao lado da embarcação.
Na cozinha, de chão cimentado com areia do mar e resíduo de conchas, pouca coisa é necessária. Basta uma pia para limpar o peixe e lavar a louça. Um pequeno fogão a gás, uma geladeira e uma mesinha para apoiar os pratos. Armários de madeira guardam a louça, panelas, copos e talheres. Do outro lado, um forno de tijolos para assar o pão. Um fogão a lenha com grelha e chapa de ferro para uma caldeirada, ou um feijão preto para os amigos. Uma rede de algodão, presa entre dois ganchos, estica os dedos de fios grossos para aliviar o cansaço do marujo, que chegou às seis da tarde. Uma velha canoa, pendurada na parede externa da casa vizinha, guarda em seu casco sinais e marcas do tempo. Histórias de amor e perdição. Ondas mansas e bravias, tempestades, trovões, naufrágios, salvação e morte.
Tenho um amigo que mora numa casinha assim. Geralmente são caiadas de branco ou verde, artísticamente decoradas com madeira de demolição. Paus roliços recolhidos das vazantes podem virar pernas de mesa ou corrimão de escadas.
Ele não vive da pesca. Mas vive do jeito simples e ecológico, que vivem os homens do mar. Em terra firme, ele constrói seus barcos. Enquanto trabalha a madeira e as cartas de navegação, planeja a próxima aventura, que tanto pode ser para Ilha Bela como Londres. Mar ou ar, tanto faz. Ou ainda para a Austrália, Havaí ou a Patagônia. Mas, no seu cantinho de mundo, protegido por enormes pedras e mata nativa ninguém é mais poeta do que ele. Quando escreve fala de maçãs e soldados, crianças abandonadas, hipocrisia e solidão.
Ao anoitecer, antes de fazer uma leve refeição, toma um banho de água gelada que vem direto da fonte. Acende pequenas tochas de querosene, para não ofuscar a luz da lua cheia. Deita-se na rede vermelha, toma o violão entre os braços e dedilha mais uma canção de amor.
Terezinha Manczak

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Que mar...

A água do mar cheirava mal. Quando voltei à praia, a cabeça de peixe ainda estava lá.
Terezinha Manczak

sábado, 30 de janeiro de 2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

Com que roupa?

Olho as inúmeras prateleiras e gavetas arejadas do meu closet e penso. Melhor, não penso: pego a roupa mais bobinha, o sapato baixo mais sem graça e saio à rua. Vou ao banco, pondero. Vou pagar contas, não depositar milhares de reais na minha conta. Penso , sim: Ninguém vai reparar. Vou e volto rápido. Vou de carro. Ninguém vai me ver. (Parece que penso que sou invisível. Que se eu não quiser, ninguém vai me notar)E as roupas bonitas, novinhas, recém compradas, ficam lá. Esperando não sei o quê.
Esses dias usei um desses vestidos novos. Soltinho, colorido, balonê leve acima dos joelhos. Um pouquinho, só um pouquinho transparente. Nem chega a ser. Apenas insinua.
Passei mal. Do início até quase o fim da XV, as pessoas me olhavam. Me olhavam dos pés à cabeça. Falei pessoas, porque não eram apenas homens que me olhavam. Mas mulheres também, e sem disfarçar. Olhavam descaradamente, principalmente se os seus pares olhavam primeiro.
Cheguei a entrar numa loja, procurei um espelho livre do provador e me olhei de alto a baixo. Como não vi nada errado, nem sujo, nem rasgado,nem estranho, perguntei à vendedora que , solícita, veio me atender.
- Diga-me uma coisa. Tem algo errado com meu vestido? Tem tanta gente me olhando na rua, que estou ficando irritada.
Ela disse: Não tem nada errado com sua roupa. Está bonita. Só isso.
Descobri que tinha razão. Poderia me tornar invisível quando bem entendesse.
Terezinha Manczak
(em anotações puras e simples)
Comer, rezar, amar.

Estou lendo um livro (Comer, rezar, amar) de Liz Gilbert, que já teve mais de quatro milhões de exemplares vendidos.
Ganhei de presente do meu filho.
Um dia antes do meu aniversário ele disse que iria me oferecer uma nova perspectiva (de vida).
Emocionei-me ao abrir o pacote de presente.Lia alguns trechos, ria, chorava, agradecia. Meu filho sabia que o livro mexeria comigo.
Esse romance eu vou ler até o fim. E será um daqueles para releitura, por ao menos mais uma vez.
Meus amigos sabem que se eu não gosto de um livro, não leio só por obrigação. Leitura,na minha opinião, é também entretenimento. Gosto dessas viagens fascinantes que faço através dos olhos de outra mulher, vivendo e modificando suas próprias histórias.
Também preciso comer, rezar e amar de jeitos novos. Comer de forma mais equilibrada, rezar para pedir exatamente o que eu quero e não deixar tudo para que Deus resolva. E o mais importante, reaprender a amar. Amar sem medo. Sei que foi por medo, medo de sofrer novamente e de forma tão intensa, que tranquei-me de uma forma que não faz bem a ninguém.
Às vezes deixo que pessoas se aproximem e fiquem um pouco, mas logo, ao primeiro sinal de um maior envolvimento, estabeleço rotas de fuga.
Certa vez, na Catedral de Blumenau,contei ao confessor que estava muito triste e até bastante deprimida,dizendo que depois do meu marido nenhum relacionamento mais dava certo.
Ele respondeu-me com outra pergunta:
- E você, está preparada para que dê certo?
Calei-me e até hoje não sei responder.

Tenho evitado entregar-me aos sentimentos e isso tem influenciado até na escrita dos meus poemas. Eles já não fluem de forma poética, amorosa e apaixonada.

Tenho escrito poemas de forma até mais rebuscada, talvez um pouquinho mais sofisticada, mas herméticos, como disse o Mestre Marcelo.
Sei que ele me diria agora, que o poema tanto pode ser de amor como sobre qualquer outro tema. Mas tem que haver poesia em cada verso.

Quem sabe, até o final da leitura desse livro maravilhoso, eu já tenha me "modificado" um pouco.